Trecho de
O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, que muito me comoveu.
[15]
Conquistei,
palmo a pequeno palmo, o terreno interior que nascera meu.
Reclamei, espaço a pequeno espaço, o pântano em que me quedara
nulo.
Pari meu ser infinito, mas tirei-me a ferros de mim mesmo.
[17]
São horas
talvez de eu fazer o único esforço de eu olhar para a minha vida. Vejo-me no
meio de um deserto imenso. Digo do que ontem literariamente fui, procuro
explicar a mim próprio como cheguei aqui.
[18]
Talvez o meu destino seja eternamente ser guarda-livros, e a
poesia ou a literatura uma borboleta que, pousando-me na cabeça, me torne tanto
mais ridículo quanto maior for a sua própria beleza.
[29]
Era a ocasião de estar alegre.
Mas pesava-me qualquer coisa, uma ânsia desconhecida, um desejo sem definição,
nem até reles. Tardava-me, talvez, a sensação de estar vivo. E quando me
debrucei da janela altíssima, sobre a rua para onde olhei sem vê-la, senti-me
de repente um daqueles trapos úmidos de limpar coisas sujas, que se levam para
a janela para secar, mas se esquecem, enrodilhados, no parapeito que mancham
lentamente.
[30]
Não me lembro da minha mãe. Ela morreu tinha eu
um ano. Tudo o que há de disperso e duro na minha sensibilidade vem da ausência
desse calor e da saudade inútil dos beijos de que me não lembro. Sou postiço.
Acordei sempre contra seios outros, acalentado por desvio.
Talvez que a saudade de não ser filho tenha
grande parte na minha indiferença sentimental. Quem, em criança, me apertou
contra a cara não me podia apertar contra o coração. Essa estava longe, num
jazigo — essa que me pertenceria, se o Destino houvesse querido que me
pertencesse.