Total de visualizações de página

quarta-feira, 23 de março de 2022

ALBERTO CAEIRO

Como é divino esse poema!!!!  


Proj-logo

Arquivo Pessoa

OBRA ÉDITA · FACSIMILE · INFO
Alberto Caeiro

II - O meu olhar é nítido como um girassol.

II

 

O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de vez em quando olhando para trás...

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem...

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras...

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo...

 

Creio no Mundo como num malmequer,

Porque o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

 

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

 

Amar é a eterna inocência,

E a única inocência é não pensar...

8-3-1914

“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).

  - 24.

domingo, 20 de março de 2022

MUDANÇAS...

foto da internet

A interação entre eu e as pessoas diminuiu bastante, a ponto de eu olhar ao redor e não enxergar mais minhas "amigas" de alguns anos atrás. Foram-se dissolvendo aos poucos e quando dei conta eu estava cercada por um espaço vazio, onde não havia mais ninguém. Não sei quem provocou esse estado de coisas primeiro, se eu ou elas.  A verdade é que sinto saudade dos tempos em que trocávamos boas conversas 
 ao redor da mesa com cafézinho e algum salgado ou doce feito por mim, quando o papo era aqui em casa. Será que é assim com elas também, em relação a outras afinidades? Será que todas as pessoas com mais de 60 já estão limitadas a seus parentes mais próximos e seus pets? Confesso que é assim comigo, mas não tanto por vontade própria. Bem queria ter alguém para jogar um Rummy, de vez em quando. Mas nem me sinto à vontade para convidar quem praticamente náo se lembra que eu existo.

É por isso que a vida vai ficando mais triste. Eu ainda sou entusiasmada por um bom papo, uma pequena reunião de pessoas, mas não me sinto à vontade para dar o primeiro passo. Já percebi que antes era sempre eu a incentivar esse tipo de coisa. Cansei. Pago o preço de não viver mais esses momentos. Mas não vou puxar a fila, nunca mais!

Ainda bem que não me deprimo por causa disso. Tenho vários interesses que de um jeito ou outro me distraem e vou vivendo o melhor que posso.

domingo, 6 de fevereiro de 2022

O COMPORTAMENTO HUMANO



                                                          (imagem da internet)



É preciso conhecer um pouco a psicologia do comportamento humano, até quando se quer fazer negócio. Hoje alguém respondeu a um anúncio que coloquei num site de vendas Antes de eu mandar a foto da Nota Fiscal, comprovando que paguei tantos reais, a pessoa pediu um desconto. Eu disse que ia mandar a NF para ele ver que estou vendendo bem mais barato do que paguei, apenas porque ninguém vai pagar a vc o que vc pagou na loja. Então, depois de ver que eu ia perder dinheiro na operação, eis que ele se interessou muito e já está a caminho para buscar o eletrodoméstico. Assim é o ser humano. Sente-se mais estimulado a fazer uma compra ao ver que vc não vai lucrar nada com a venda e sim, perder dinheiro.

sábado, 15 de janeiro de 2022

nossa marca registrada

                                                                         (foto da internet)


Acabamos por nos acostumar aos pequenos desarranjos que a vida vai fazendo em nós. Até uma ou duas unhas que nunca mais cresceram de forma normal e sempre vão se rachando à medida em que crescem, uma parte dos cabelos que teima em rarear, uma deficiência nos músculos e nervos causada por tombos ou acidentes, que nos deixam com sequelas como dor e tensão, uma hérnia que surgiu na adolescência e que sabemos que não vamos curar, um engasgo que nos acomete com frequência  num simples ato de beber água, essas e mais pequenas coisas que há tempos fazem parte de nossa realidade e que vão nos acompanhar até o final dos dias, fora as que ainda surgirão, que são e serão nossas marcas pessoais, tudo isso junto e mais nosso comportamento a essa altura já previsível em diversas situações, são nossa história de vida e por essa vida não sei por que razão oferecida a nós, temos que agradecer. Sim, gratidão é tudo o que nos resta diante da evidência de que o amor é necessário e a única força que vale a pena não esquecer.

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

O SILÊNCIO DOS ANIMAIS

 


Certamente quase todos já viram uma luta de animais selvagens, ao menos na televisão. Durante a luta, enquanto  não há ferimentos, ouvimos gritos de um e de outro na fúria pela sobrevivência. Mas aí acontece algo muito estranho assim que um fere o outro. A vítima não emite um som sequer. O vitorioso continua a destroçar sua vítima e o silêncio do que é abatido é total. Gostaria de saber, caso alguém possa me explicar, por que os animais feridos não emitem nenhum grito? Será que não sentem dor^E se sentem, por que ficam em silêncio? Será algum poder especial que possuem,  de sofrer em silêncio?

O fenômeno se repete mesmo entre animais de porte médio e pequeno, até os domésticos. Há barulho na briga, mas depois que um é ferido instala-se um silêncio perturbador...

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

GRATIDÃO

 




Aos meus contatos no blog passei para desejar um Ano Novo muito próspero, com equilíbrio, saúde, realizações e muita paz!!
Grata por me acompanharem no mundo virtual!
Beijos a todos vocês!!!

terça-feira, 23 de novembro de 2021

o dia dos meus anos

Hoje é o dia dos meus anos. Foi o que eu consegui sentir, foi o que eu quis compartilhar com vocês.


pdf
OBRA ÉDITA · FACSIMILE · INFO
Álvaro de Campos

ANIVERSÁRIO

(copiado da internet)






Proj-logo

ANIVERSÁRIO - 

ANIVERSÁRIO

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu era feliz e ninguém estava morto.

Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,

E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,

De ser inteligente para entre a família,

E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.

Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.

Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,

O que fui de coração e parentesco,

O que fui de serões de meia-província,

O que fui de amarem-me e eu ser menino.

O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...

A que distância!...

(Nem o acho...)

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,

Pondo grelado nas paredes...

O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),

O que eu sou hoje é terem vendido a casa.

É terem morrido todos,

É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!

Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,

Por uma viagem metafísica e carnal,

Com uma dualidade de eu para mim...

Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...

A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,

O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado —,

As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!

Não penses! Deixa o pensar na cabeça!

Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!

Hoje já não faço anos.

Duro.

Somam-se-me dias.

Serei velho quando o for.

Mais nada.

Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

15-10-1929

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).

  - 284.