Outro dia, ouvindo uma estação de rádio, soube da existência do Testamento Vital. Achei uma coisa interessante e necessária a quem encara a morte como algo inexorável. Meu avô materno passou a mim a sabedoria de levar a morte como algo natural e que deve ser considerada com um certo bom humor, já que é inevitável.
Decidi fazer meu testamento vital agora, 2 dias antes do meu aniversário, como se fosse um presente dado a mim mesma. Escolhi um modelo na internet, fiz algumas alterações no preenchimento de dados como nomes, etc, mas segui à risca o modelo escolhido, já que o achei adequado ao meu gosto.
Se alguém quiser copiar esse testamento, aqui vai o link :
http://dignamorte.blogspot.com/2013/01/normal-0-false-false-false-en-us-ja-x_14.html
O importante é não abandonar os sonhos. Estou me referindo aos sonhos que temos acordados, enquanto vamos vivendo. Eles mudam sem que a gente perceba, então vamos realizando cada um, a seu tempo.Fazendo um retrocesso perceberemos que nenhum deles foi tão importante, já que são mutáveis e efêmeros. Mas àquela época eram o que me moviam. O essencial é a vontade de realizá-los, contanto que possamos vê-los mais tarde como algo que passou. Mas valeu o esforço de realizar cada um deles. E algum que não possamos ter realizado também vai deixar de ser importante. É isso que dá sabor à vida. Ter um sonho é um tipo de paixão. Acreditem que entre os vários que tive, cheguei a sonhar por muitos anos em cantar no coral da orquestra do Ray Conniff!!!
Mesmo depois de idosa (ô palavrinha) eu ainda tenho sonhos, mas são muito diferentes.Já têm data de validade menor. São mais singelos.
O que ficou agora e de forma muito intensa é a gratidão por ter chegado até aqui com a consciência tranquila. Fiz o que fiz porque assim o quis. Não me queixo. Paguei o preço de todas as minhas bobeiras.

Era um casal de sanhaços azuis. Estavam mortos em frente a uma escola. Quase pisei neles. Levei um susto e ao mesmo tempo fiquei tomada de tristeza. Raramente vejo um passarinho morto. Até me perguntava como isso acontecia se há tantos passarinhos e eu nunca os vejo mortos. Desta vez foram dois. Parei e fiquei a pensar o que teria acontecido a eles. Hoje felizmente já não se vê garotos matando passarinhos com estilingue. E logo dois....resolvi bater na porta da escola e apareceu uma moça que ficou olhando e logo esclareceu minha questão: bateram numa grande janela de vidro que havia na escola. Lá iam voando juntos o casal de passarinhos e se chocaram violentamente contra o vidro. Não tive coragem de olhar de perto mas ela falou que estavam com sangue no bico e na cabecinha. Foi buscar uma caixa de papelão, um punhado de guardanapos brancos e providenciou uma caminha para os pobrezinhos. Fiquei comovida. Agradeci a ela. A escola se chama SUPERA. Ensina a exercitar e desenvolver a capacidade cerebral.
Deve ser uma boa escola. Pois a moça foi rápida ao diagnosticar a causa da morte e a providenciar um enterro digno ao belo casal.
Cada vez mais sinto-me parte de um mundo estranho. Percebo que gosto dos animais e plantas mais do que dos seres humanos. Mas logo vem-me um momento de compaixão por todos, ao me dar conta de que cada um de nós está vivendo seu pedaço aqui no planeta. Agora mesmo, sentada numa sala de espera de uma clínica popular, um homem na fileira à minha frente não pára de chacoalhar o ombro direito. Levantei-me para ver qual o problema dele e foi fácil verificar que há um descontrole nervoso em todo o lado direito de seu corpo. Provavelmente teve um AVC. Um homem simpático, com boa aparência, alegre ao conversar com a atendente. Por alguma razão que desconhecemos algumas pessoas são menos privilegiadas que outras. Ou estou apenas conjecturando e tudo, tudo neste mundo está envolto num grande mistério, difícil de entender!!!
Nosso cérebro alcança menos do que gostaríamos, para entender certos fatos que nos parecem injustiças divinas. Mas algo me diz que em outro plano tudo será esclarecido. Por enquanto nos resta sermos solidários e ajudarmo-nos como pudermos.
Uma amiga disse-me que eu devia ser escritora....eu ri e pensei: para ser escritora acho fundamental saber contar uma história. Alguém que tem um blog onde registra reflexões sobre sua própria experiência está longe de ser escritora. Não suportaria dar conselhos, como alguns livros de auto-ajuda fazem. E também não gosto de recebê-los. Não sei falar de alguma coisa inventada. Criar uma história fictícia até para ilustrar algo que tenha se passado comigo é coisa que não sei fazer. Que diabo de escritora eu seria? Sou suportável apenas em algumas publicações no meu blog. Nada mais que isso. Gostaria de me abstrair totalmente e criar algo fora da minha realidade. Não dá. A tela fica em branco.
No local abaixo tive a mais dolorosa experiência quando criança. Publiquei no meu blog. Isso eu consigo. Acho que sou uma exorcista.
Morei na casa da minha avó até os 8 anos de idade. Tínhamos quintal, pomar e galinheiro. Minha avó, portuguesa, cozinhava muito bem. Lembro-me de vários pratos deliciosos, entre eles a canja de galinha feita com matéria prima do galinheiro, e que incluía um cacho de pequenas gemas cozidas dos ovos que ainda não haviam maturado totalmente.
Hoje, ao desossar um peito de frango cozido para o almoço das minhas cachorrinhas notei (e já havia notado algumas vezes antes) que o osso da sorte (do peito da galinha) era bem maior quando eu era criança, Tanto é que sempre tirávamos a sorte e quem ficasse com a parte maior da forquilha era o "sortudo".
Agora não dá mais para brincar com o osso da sorte. O tal osso se tornou tão frágil e pequenino que já não significa nada muito atraente para se jogar a sorte.
Será que a sorte anda sumida ou o alimento prejudicado?
Hoje, enquanto fazia o arroz, lembrei-me da minha cidade natal e imaginei a mesma cena só que lá. Veio imediatamente (e como isso foi intenso) uma sensação tão boa, que quase senti o ar úmido de maresia janela adentro, o sol quente e o típico barulho da cidade num dia de semana normal. Inevitável foi recordar em alguns segundos o resumo de toda uma vida entremeada de alegrias e tristezas. Mas a presença de uma dor maior chegou para embaçar todo o brilho que se formava nessa recordação. A morte de uma irmãzinha querida.
Tendo já saído de onde morei por 23 anos para trabalhar na região do ABC em busca de um salário melhor, percebi que se não o tivesse feito então, seria inevitável fazê-lo quando a maior dor de minha vida chegasse para ceifar a alegria dos meus dias naquela cidade cheia de brilho. Seria meu destino abandonar tudo e mergulhar no desconhecido. O acolhimento da cidade que me viu nascer estava por completo destinado a ser tirado de mim.
Desde então procuro brincar de faz de conta. Como a criança segura uma boneca em suas mãos e faz de conta que está abraçando sua filhinha, eu vou sempre sentir a falta de um aconchego que me foi recusado para sempre!
De repente senti a dor do emigrante!