Numa conversa com meu filho disse ele que podemos calcular o tempo de vida pelos fogões e geladeiras que tivemos. Não incluiu a máquina de lavar roupas. Interessante. Quem já teve 3 fogões ou 3 geladeiras, caso não seja muito cuidadoso e a marca dos eletrodomésticos seja razoavelmente boa, deve estar na faixa dos 40/50 anos. Eu só tive lavadora de roupas depois de casada. Já me separei do marido mas a máquina continua a mesma: 47 anos. Fogão já tive uns 3 e geladeira idem. Sou cuidadosa, portanto pode ser a minha cota para essa vida. Se houver outra vida, espero que os problemas domésticos sejam menores....
Enquanto varria a casa dei com o olhar de minha cachorrinha pousado em mim, e lembrei-me de que, quando era criança e via minha mãe ou minha tia varrendo a casa e eu deitada na cama (devia ser muito pequena ainda) era invadida por uma sensação muito gostosa de segurança e não sei se foi o que vi agora nos olhos de minha cachorrinha. Acredito que sim. Todos os seres vivos se sentem em paz quando percebem um ambiente de harmonia ao redor deles. Tudo isso são suposições minhas, pois não tenho provas cientificas de nada do que digo. Mas tenho certeza que na infância (e talvez na vida canina) alguns gestos simples chegam para transmitir a paz que um ser vivo merece.
Se ao menos as pessoas percebessem que pequenos gestos que simbolizam segurança (embora esta esteja sempre sob ameaça) significam uma reserva imensa de paz nos corações de crianças, adolescentes, adultos e animais.
Quem disse que eu ainda não sinto o chão tremer de vez em quando e o céu rugir?
(minha flor predileta)
Agora que estou na reta de partida, gosto mais da vida. Não é preciso ter tanto compromisso. Não é preciso ter mais nenhum compromisso. Só quero estar em harmonia com o que está acontecendo. Entender, relevar, se necessário for. Começo a simplificar as coisas. Os enunciados, as fórmulas, as regras. Percebo que não é preciso levar nada muito a sério. Estar alerta ao que se precisa fazer é suficiente. E quase nunca preciso afirmar uma ideia. Cada um vai procurar a sua. E vai encontrar, mais cedo ou mais tarde. Isso é bom demais. Sobra tempo para saborear as coisas.
Não sei criar estórias. A vida já é muito rica. Intensa o suficiente para que eu elabore o que está acontecendo. Nem sempre é fácil. Nem sempre consigo.
Mas aí me lembro da frase da Dona Canô, mãe de Maria Bethania, ao responder como conseguiu viver tantos anos: "Simples. É aceitar o que está se passando".
Perguntaram à Dona Canô (mãe de Maria Betânia) como conseguia tanta disposição apesar de seus cem anos de idade. Qual o segredo de tamanha serenidade? Ela respondia: "É aceitar o que está se passando".
Comecei com esse prefácio para escrever sobre o que estava sendo construído nesses últimos dias, tomando forma e sequência no dia 9 de fevereiro passado.
Há algum tempo eu andava insatisfeita (como pensamos e decidimos a torto e à direito, oh!) com muito trabalho a fazer em casa, mesmo morando sozinha. Acreditei ser porque num apartamento de 3 dormitórios, duas salas, dois banheiros, dois terraços, cozinha e lavanderia, sobrava-me pouco tempo para o lazer. E aconteceu o que menos esperava: o apartamento em frente vagou e o dono dividiu-o em 2. Um de 45m2 e outro de 35m2. Observando a reforma achei que o de 45 seria a salvação da lavoura. Lá trabalharia menos e sobraria tempo para algum lazer. Falei com o dono e no dia 9 fiz a mudança. Contratei um casal que levou tudo o que era pesado de um canto para o outro.
Logo no primeiro dia avisei a prestadora de serviços que precisava mudar o ponto da TV/Internet/Telefone fixo e assim cobraram 90,00. Fiquei empolgada com o novo cantinho, até que chegou a hora de dormir e vi que minhas cachorras não sabiam onde se acomodar. Olhavam-me com uma carinha que dizia: onde você veio nos enfiar????
No dia seguinte, ainda cansadíssima, fiz um almoço simples e meus filhos vieram. Um deles falou: mãe, seu quarto parece uma despensa. Realmente, era pequeno e não tinha janela. Só azulejo de vidro para clarear um pouco. Ao amanhecer eu não dormia mais e à noite entrava luz da rua.....
Para resumir, 4 dias depois já estava eu de volta ao velho apartamento de 3 dormitórios. E pagando tudo outra vez: mudança de móveis e ponto de internet. etc.
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Alguém já disse que tudo é relativo (Dr. Einstein) então eu pude sentir na pele e no bolso o que significa retomar um esquema antigo e desta vez achar minha situação MARAVILHOSA. Que delícia voltar a respirar sem ter uma cadeira ou uma parede na frente a me prender os mínimos movimentos. E ganhei dois presentes nessa volta. Foi tirada uma mesa gigante da sala (que fazia parte do pacote quando aluguei o apê) e meu fogão finalmente pode reinar com seus 4 pezinhos, já que estava embutido num local muito alto que me obrigava a cozinhar subindo num tablado.
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Sou protegida pelo Divino. O proprietário não cobrou os dias em que passei no outro apartamento (ele é dono do prédio) e não havia ainda assinado qualquer contrato. Decerto pressentiu que eu mudaria de ideia.
Mas assim mesmo separei muitas coisas para doação que o caminhão virá buscar amanhã.
Como tudo é relativo (e essa é uma verdade incontestável), pratico minha filosofia de forno e fogão, às vezes de pia, o que hoje é o caso.
Pensando na relatividade das coisas, presumo que minhas reflexões são tão válidas como a de pensadores famosos. A diferença é que eles tiveram o dom. Falaram sobre mundos desconhecidos, abriram portas imensas! Eu tenho a felicidade de haver absorvido um pouco de seus pensamentos e arrisco uma filosofia trivial....
Hoje estava eu pensando, enquanto lavava a louça, que depois que me for, as coisas que hoje toco serão tocadas por outros. Esse prato que agora lavo (caso ainda não tenha quebrado), esses talheres, copos, etc., serão usados por mais alguém e seus destinos serão outros armários. Achei isso tão instigante que mesmo tendo acabado de desligar meu PC, voltei a ligá-lo porque não sei editar meu blog pelo celular.
Acredito numa interligação de tudo, uma finalidade de colaboração utilitária comum a tudo, não só aos seres vivos, mas às coisas que os servem. Não só acredito nisso, como acho que uma certa quantidade da energia de cada um de nós fica impregnada em tudo o que tocamos. Tudo serve para alguma outra finalidade. Até no buraco negro deve haver alguma coisa daquilo que existe fora dele....
Não me levem a sério, devo estar abusando da metafísica. É que não consigo guardar minhas ideias, gosto de compartilhá-las, caso contrário não teria um blog.
Talvez pelo fato de o tema estar em destaque esses dias, lembrei-me de um mal-estar que passei quando tinha meus 10 anos de idade.
Hoje já seria caracterizado por importunação sexual, ou algo do tipo.
Estava numa pizzaria em São Vicente com minha família: pais, avô e irmã. Comíamos uma pizza, que era um prato que eu amava...e de repente percebo que em uma mesa próxima, um par de olhos masculinos me espreitava. Olhava fixo para mim, e ao perceber que insistia, baixei os olhos e tentei levar à boca mais um pedaço da pizza. A coisa não desceu bem. Ao levantar os olhos eis que o homem além de olhar, sorria. Fiquei constrangida, pois além de tímida tinha medo que meu pai percebesse. Ia dar barraco, pois ele era nervoso e tinha pavio curto.
Contei isso porque o fato de não me sair da memória é sinal de que foi um acontecimento marcante. Para quem já tinha medo do pai desde que nasceu, o fato de ver um outro homem numa atitude que me fazia encolher de medo, deixou tudo numa dimensão confusa e apavorante. Nunca contei isso pra ninguém, estranho. Agora entendo porque muitas mulheres deixam de relatar um abuso sexual logo após o incidente. Há algo na natureza de uma mulher que é frágil demais. Existe um medo de que a culpa seja nossa, mesmo aos 10 anos. Eu era bonitinha mas nunca havia passado por situação semelhante.
Esse homem que me violentou com o olhar asqueroso devia ter na época uns 30 anos mas conseguiu estragar meu jantar. A pizza que eu tanto adoraria ter comido ficou quase toda no prato.
O mais instigante é constatar agora que ninguém da minha família percebeu. Viram como é complicado???
Tenho idade suficiente para ter vivido o tempo em que não havia TV, celular nem internet. O primeiro telefone de que tenho lembrança era preto, pesadão, e quase inacessível nos meus 4/5 anos de idade. Lembro-me de que as pessoas viviam seus dias enfrentando tudo com uma relativa boa vontade. A geladeira na casa da minha avó era um armário com uma repartição de alumínio, onde se colocava uma grande pedra de gelo, que chegava num carrinho. O carregador trazia a pedra envolta num pano e eu sempre achava que ele ia deixar cair a pedra no chão. Não sei como providenciavam comida naquela casa pois minha avó não saía para as compras. Minha tia fazia todo o serviço da casa e minha mãe cuidava de nós, filhas. Acho que meu pai comprava as coisas. Logo que pude sair à rua fui escalada para comprar o pão do lanche da tarde. Perguntava à minha tia: suiço ou de água? Lá vinha eu com a bengala e o chá mate já estava esperando à mesa.
Pulando no tempo, hoje moro sozinha, tenho celular, TV a cabo e internet. Adoro o progresso. Não trocaria isso por nada dos tempos antigos. Nada? Sim, trocaria uma coisa: daria tudo para saber como é viver sem estresse. Naquele tempo não se falava nisso. Será que havia estresse? Via as pessoas tristes ou alegres, bravas ou felizes, mas a palavra estresse ainda não havia sido inventada. Talvez o estado emocional já habitasse os seres amorosos que cuidavam de mim, mas a vida corria mais naturalmente...