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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

matando a macaca velha





Esperem até se aposentar. Tudo o que foi sonhado fazer, então, vai perdendo a nitidez, como se você se perguntasse: "O que foi mesmo que eu queria fazer quando me aposentasse?" Porque a gente muda a cada momento, e depois de um ano é como se todas as nossas células, não só do corpo, mas principalmente do cérebro, pertencessem já a uma outra pessoa, tão diferente de nós há um ano. Já não queremos o sossego planejado, e por outro lado fugimos de esquemas com horários e obrigações. 

Fazer o que? Morando sozinha a coisa fica ainda mais complicada. Sim, porque você tem que interagir de vez em quando para não pirar. E não há ninguém vivendo com você para trocar idéias.  Aí vai perceber que fazer isso com as velhas amigas é impossível. Todas têm compromisso com namorados que as mantêm sob controle. Fazer novas amigas até é fácil, mas você tem que se expor um pouco, sair, inventar coisas para fazer.

Acabei de chegar em casa. Saí em busca de um refil para um aparelho de giletes muito bom, mas esqueci-me de levar o aparelho e aí já fiquei sem saber se os vários modelitos se encaixavam no meu aparelho. Vou deixar para outro dia acertar esse assunto.

O que ficou mais claro nessa saída foi algo que quero compartilhar, até para saber se eu sou a única que penso assim (nesse caso preciso consultar um especialista). Com a idade chegando naquela fase final, de onde não se espera muito mais, (os planos a longo prazo, nem pensar...) vamos sentindo que o único lugar em que nos sentimos confortáveis é dentro de nossas próprias casas. O lar que criamos para nós independe de fatores externos. Aqui me refiro ao espaço entre as paredes de nossa moradia. O clima de bem estar, a energia de serenidade (apesar do trânsito lá embaixo, lá fora), nos deixa mais seguros de que podemos sonhar nossos sonhos (acordados ou dormindo).

Ainda tenho sonhos que sonho acordada. São pequenos, coloridos, cheios de uma pequena esperança de que ao menos aquele dia seja mais alegre que o anterior. 

A sensibilidade e percepção aumentam e você começa a ver que tudo ou quase tudo o que os outros fazem é apenas um disfarce para afugentar a solidão, o nada, o vazio, até chegar aquela hora  que todos têm que encarar, a não ser os que morrem antes.

Eu estou aprendendo a viver com a solidão desde que nasci. Há momentos em que ela é minha melhor amiga (a maioria deles) mas há ocasiões em que a macaca-mulher precisa de alguns artifícios para não se entristecer. Ouvi de uma amiga que assistiu no History Channel que o homem é um misto de entidades espirituais superiores e de um animal. A luta é fazer com que esse animal seja domado para que a proteção dos nossos orientadores espirituais seja mais efetiva. 

Estou tentando (e hei de conseguir) matar a macaca velha que teima em habitar dentro de mim. Não tenho dado atenção a ela. Isso faz com que fique brava e resmungue o dia inteiro. Nem dou confiança. Prefiro um sofrimento mais nobre, renunciando a falsas alegrias. Elas já não me convencem.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

trechos. do LIVRO DO DESASSOSSEGO


fotohttp://pessoasempre.blogspot.com.b

397.
...
Lembro-me de repente de quando era criança, e via, como hoje não posso ver, a manhã raiar sobre a cidade. Ela então não raiava para mim, mas para a vida, porque então eu (não sendo consciente) era a vida. Via a manhã e tinha alegria; hoje vejo a manhã , e tenho alegria, e fico triste...A criança ficou mas emudeceu.


398.

Tenho por intuição que para as criaturas como eu nenhuma circunstância material pode ser propícia, nenhum caso da vida ter uma solução favorável. Se já por outras razões me afasto da vida, esta contribui também para que eu me afaste. Aquelas somas de factos que, para os homens vulgares, inevitabilizariam o exito, têm, quando me dizem respeito, um outro resultado qualquer, inesperado e adverso.
Nasce-me, às vezes, desta constatação, uma impressão dolorosa de inimizade divina. Parece-me que só por um ajeitar consciente dos factos, de modo a que me sejam maléficos, a série de  desastres, que define a minha vida, me poderia ter acontecido.




Ah! Como eu entendo o que sentias, FP! Tenho por sorte o ensinamento que passaste a quem tiver vontade de aprender o que é a vida, e ainda por cima não querer passar pelos cansativos e desgastantes processos inúteis da experiência por teimosia de apenas tê-los.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

UM FIO DE ESPERANÇA





Durante muitos anos em minha vida fui omissa em relação a tantas coisas que poderia ter feito, tantos esquemas nos quais poderia ter me engajado para o bem das causas humanitárias, dos direitos dos cidadãos, do auxílio voluntário aos que necessitam de cuidados. Sei que isso precisa ser feito com boa condição física e emocional de quem se propõe a fazê-lo. Meu ser, desde adolescente, tem tido dificuldade em jogar-se de corpo e alma a tudo aquilo que uma parte de mim ansiava por fazer.  Faltava-me coragem, confiança em minha capacidade, enfim, alguma coisa me impediu, que só hoje começo a decifrar. Só hoje,  já mais preparada para viver com as limitações que a idade vem impondo, é que me senti com vontade de voltar 30 ou 40 anos e poder justificar minha vinda ao mundo. Só hoje sei o que me impediu de ousar. E o que mais me dói é que conheço minhas qualificações para o que deveria ter feito e não fiz. Acabei me acovardando dentro de uma opção de vida que desde o começo já estava condenada ao fracasso, (que veio acrescentar mais medo e falta de confiança à minha natureza antes tão disposta) e o que ficou foi uma vida medíocre, se é que posso dizer isso, comparando-a com pessoas que fizeram tanto pelos outros. Não faltou auto-motivação para fazer cursos, participar de atividades voluntárias por alguns anos, mas tudo foi feito por algum tempo, não o suficiente para levar a alguma realização palpável. Tudo durou pouco. Meu curso de medicina alternativa (de 2 anos) permitiu que eu fizesse uma sociedade com duas pessoas e criasse um espaço para praticar o que aprendi, mas não teve sucesso. Minhas sócias que nasceram e viveram a vida inteira nesta cidade é quem tinham seus clientes e nunca compartilharam uma parte deles comigo. Eu, como não conheço quase ninguém aqui onde moro, ficava às moscas, sem clientes e isso me fez desistir depois de 3 meses pagando despesas e não recebendo um centavo de retorno. 
Reparei, fazendo um exame mais detalhado em minha vida, que tudo aquilo em que me envolvi no sentido de prestar um trabalho voluntário, já que me aposentei, foi tirado de mim por motivos fortes, que chegaram a me prejudicar a saúde. 
Hoje costumo oferecer ao Ser Supremo todos os momentos em que estou executando uma tarefa "menor", pois tenho perfeita consciência de que poderia estar sendo melhor aproveitada em esquemas mais edificantes do que cozinhar e cuidar da casa. Ao mesmo tempo, chegam imediatamente à minha lembrança, vivências de épocas muito difíceis, onde precisei de sorte para atravessá-las com corpo e mente preservados. Então valorizo o que sou. Faço tudo o que for preciso com capricho, amor e oferecendo como crédito ao transcendental. Não sei se existe vida depois desta, mas suspeito de que o fato de não termos provas de nada é exatamente para que possamos ser espontâneos e não barganhar com Deus. 
Sempre fui só e um fio de esperança me conduziu até aqui. Hoje tenho medo de que esse fio se rompa.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

sobre o tédio...







Se já escrevi isto aqui, me perdoem, mas se aconteceu deve ter sido há muito tempo.
Tenho em Fernando Pessoa (que me acompanha através de seus livros) meu grande amigo. O Livro do Desassossego é um dos dois livros de cabeceira que não dispenso. Hoje ao ler um trecho sobre o tédio, resolvi compartilhar para que possam apreciar o quanto de sabedoria há nas palavras do escritor/poeta!



381. Ninguém ainda definiu, como linguagem com que compreendesse quem o não tivesse experimentado, o que é o tédio. O que a uns chamam tédio, não é mais que aborrecimento; o que a outros o chamam, não é senão mal-estar; há outros, ainda que chamam tédio ao cansaço. Mas o tédio, embora participe do cansaço, e do mal-estar, e do aborrecimento, participa deles como a água participa do hidrogênio e oxigênio, de que se compõe. Inclui-os sem a eles se assemelhar.


383. O mundo exterior existe como um actor num palco: está lá mas é outra coisa. (*)

comungo totalmente com essa ideia do FP, motivo pelo qual quis acrescentar o parágrafo 383. no post.


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O Demônio do Meio Dia









O demônio do meio dia (*) me visita quase todos os dias, ao redor do meio-dia. Depois vai embora sorrateiro e nem vejo por onde ele sai. 


(*) O Demônio do Meio Dia, livro de Andrew Salomon.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

a mais vil de todas as necessidades...






Coloco um texto de Fernando Pessoa, de O Livro do Desassossego, o qual pretendo seguir de agora em diante.  Que seja meu propósito para o Ano Novo:

349.
A mais vil de todas as necessidades - a da confidência, a da confissão. É a necessidade da alma de ser exterior.

Confessa, sim; mas confessa o que não sentes. Livra a tua alma, sim, do peso dos seus segredos, dizendo-os, mas ainda bem que os segredos que digas, nunca os tenhas tido. Mente a ti próprio antes de dizeres essa verdade. Exprimir é sempre errar. Sê consciente: exprimir seja, para ti, mentir.


Muitos já vivem isso. Não é possivel que haja tanta gente feliz! Agora será a minha vez! Conseguirei, com certeza!!!

Só o Fernando Pessoa me entenderia hoje, mas ele já morreu!!!

sábado, 29 de dezembro de 2012

o tamanho da cruz





Não me lembro se já escrevi sobre isso aqui no blog.

Um dia fui a um Tarólogo que também é meu amigo, e no final da consulta, ele já me acompanhando até o elevador, queixei-me de que sinto que minha cruz às vezes é pesada demais e tenho a sensação de não poder carregá-la. Naquela época eu vinha passando por uma série de contratempos que me deixaram desenergizada e com um alto nível de estresse. Ele olhou-me com um ar complacente, de quem tem vontade de ajudar e contou-me uma historinha, que até hoje serve-me de motivação para não me queixar da vida, apesar de meus desabafos eventuais, coisa que faço geralmente no blog, para não perturbar muito o dia a dia dos meus parentes e amigos.

Contou-me ele que um homem, já cansado de tanto sofrimento, sem forças para tocar a vida, ao se deitar uma noite, pediu a Jesus que o fizesse sonhar com um remédio para curar seu mal. Eis que ao acordar o homem lembrou-se do sonho, que era mais ou menos assim:  estava ele frente a frente com Jesus, a quem  contou seus problemas. Jesus disse: siga-me que quero mostrar-lhe uma coisa. Encaminhou o homem a um grande depósito, onde havia uma porta de entrada que foi aberta para que os dois passassem. O homem ficou estarrecido com o que viu: cruzes de todos os tamanhos e materiais se empilhavam pelas paredes e muitas pelo chão. Algumas eram muito grandes, outras um pouco menores e Jesus disse: faça como desejar. Se quiser trocar sua cruz por qualquer uma outra dessas, farei com que sua vontade seja satisfeita. O homem olhou, examinou e avaliou se iria valer a pena, já que todas pareciam pesadas também. Finalmente já iam saindo quando o homem teve a idéia de olhar atrás da porta que foi aberta quando eles chegaram, e viu uma cruz bem pequena, que parecia fácil de levar. Ele imediatamente apontou aquela cruz e disse a Jesus: quero aquela!!! Jesus olhou para o homem e falou: mas essa é a sua cruz!