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sábado, 14 de maio de 2011

A SATURAÇÃO DA SERVIDÃO

Agustina Bessa-Luís Portugal


Hoje estão em causa, não as paradas, que é tudo em que as multidões são adestradas, ou a guerra, a que se convidam; está em causa toda uma dinâmica nova para criar o habitat duma humanidade que atingiu a saturação da servidão, depois de há milénios ter dado o passo da reflexão. As pessoas interrogam-se em tudo quanto vivem. A saturação da servidão não é uma revolta; é um sentimento de desapego imenso quanto aos princípios que amaram, os deuses a que se curvaram, os homens que exaltaram. (...) Mas foi crescendo a saturação da servidão, porque a alma humana cresceu também, tornou-se capaz de ser amada espontaneamente; tudo o que servimos era o intermediário do nosso amor pelo que em absoluto nós somos. Serviram-se valores porque neles se representava a aparência duma qualidade, como a beleza, o saber, a força; esses valores estão agora saturados, demolidos pela revelação da verdade de que tudo é concedido ao corpo moral da humanidade e não ao seu executor.

Um grande terror sucede à saturação da servidão. Receamos essa motivação nova que é a nossa vontade, a nossa fé sem justificação a não ser estarmos presentes num imenso espaço que não é povoado pela mitologia de coisa alguma. Somos novos na nossa velha aspiração: a liberdade é doce para os que a esperam; quando ela for um facto para toda a gente, damos-lhe outro nome.



Agustina Bessa-Luís, in 'Dicionário Imperfeito'

Tema(s): Servidão Ler outros pensamentos de Agustina Bessa-Luís
 
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Um comentário:

ze alberto disse...

Olá,
Gostei tanto da escolha desta reflexão que a Sónia aqui postou, pois é um texto de que me lembro frequentemente, no dia-a-dia, ao observar o que se passa à minha volta. É um dos textos mais "luminosos" que me recordo de ler da Agustina, pela profundidade e lucidez de que se reveste.

A reflexão que ela desenvolve ao longo de toda a sua obra é um óptimo estímulo para observarmos as coisas da vida e do mundo sob uma perspectiva original, concorde-se ou não com esses pontos de vista.

Penso, e creio que com justiça, que falta consagrar a Agustina como uma das vozes "maiores" da literatura portuguesa, pela profundidade e originalidade do seu "universo".

Fico muito contente com a simpatia que a Sónia demonstra pelas reflexões da Agustina que, tal como a pintora portuguesa Paula Rego, contruíu toda a sua obra em torno do universo feminino.

abraço!